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Neste mês de agosto trazemo-vos o caso do Carlos.

O Carlos sempre foi, desde pequeno, muito difícil. Pelos três anos de idade, fazia birras brutais, demoradas, e sem qualquer justificação. Quando entrou para a escola, a professora viu-se e desejou-se com o comportamento do miúdo: muito opositivo, insolente, mentiroso e sempre pronto a desafiar a autoridade dos crescidos. Apesar de tudo, era esperto para os estudos a até obtinha classificações razoáveis. A culpa do seu mau comportamento era, diziam, dos pais que não lhe davam educação nem se preocupavam com ele. De facto, o pai, embora fosse um homem carinhoso e bom, não se conseguia libertar do hábito de beber. A mãe, essa, era uma mulher fria, distante e pouco envolvida no acompanhamento do Carlos. Pelos doze anos de idade, as coisas pioraram: agia como se não tivesse escrúpulos ou remorsos; era agressivo, fisicamente, para os colegas, sobretudo para os mais fracos; furtava dinheiro e outros bens, mesmo aos amigos; tinha comportamentos verbalmente insultuosos para os professores e, até, para desconhecidos; foi, por várias vezes, fisicamente cruel para uma colega com deficiência; e vandalizou espaços públicos e privados. O caso foi relatado à Comissão de Protecção de Menores que abriu um processo. O Pedopsiquiatra que o observou não teve dúvidas: tratava-se de uma Perturbação ??????. Foi iniciada uma complexa intervenção que envolveu, para além do Carlos, a família e a escola. As coisas melhoraram muito: hoje, aos 18 anos, o Carlos tem um comportamento social absolutamente convencional e já confidenciou a um amigo que estará a ponderar o ingresso num seminário…

Vejam a solução na edição do próximo mês!

Por

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Francisca de Castro Palha

  • Interna de Pediatria do Centro Hospitalar Lisboa Norte (Hospital de Santa Maria)
  • Departamento de Pediatria (Directora: Prof. Doutora Maria do Céu Machado)

 

 

Apresentamo-vos ainda a solução do caso do mês de julho, o caso do Artur.

O Artur, em pequeno, nunca foi igual às outras crianças: aos trinta meses, custava-lhe, ainda, fixar o olhar no interlocutor; não dizia uma única palavra, embora percebesse tudo o que lhe diziam; quando ficava excitado, fazia um gesto esquisito com os braços; rodava objectos; evitava o contacto físico; tinha um espírito assaz rotineiro; o seu desenvolvimento motor era funcional, embora fosse notado um nítido desajeitamento; não parecia manifestar um grande interesse pelas outras crianças, preferindo entreter-se sozinho; era muito irrequieto; e fazia birras descomunais, injustificadas. O neuropediatra que o viu disse que o Artur padecia de uma Perturbação do Espectro do Autismo e que a situação era incurável, ou seja, seria para toda a vida. Mas, curiosamente, o Artur começou a melhorar, e muito. Lentamente, as manifestações atrás assinaladas começaram a dissipar-se e, pelos sete anos de idade, o Artur apresentava, tão-somente, uma grande irrequietude, um significativo défice de atenção e uma assinalável impulsividade. Quanto ao resto, era tudo normal. Intrigados, os pais consultaram um outro Pediatra que lhes explicou a estranha evolução para uma cura inesperada. Na verdade, não se tratou de uma cura de um Autismo porque não se tratava de uma Perturbação do Espectro do Autismo: o conjunto de manifestações inicialmente apresentado enquadrava-se, antes, no novo conceito ????? que, no presente caso, evoluiu, de uma forma benigna, para uma Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (poderia ter evoluído para outras patologias). O Artur, esse, embora um excelente aluno, está insuportável e já teve de ser medicado. Mas vai ser, diz ele, Presidente …

Atendendo a que determinadas entidades neurodesenvolvimentais evoluem para outras ou mesmo se dissipam, bem como ao facto de as manifestações neurodesenvolvimentais e comportamentais, particularmente nos grupos etários mais baixos, poderem ser interpretadas como elegíveis para critérios classificativos de diferentes Perturbações do Neurodesenvolvimento, Christopher Gillberg, um insigne neuro-psiquiatra sueco, propôs o conceito ESSENCE (Early Symptomatic Syndrome Eliciting Neuropsychiatric-neurodevelopmental Clinical Examination), que corresponde, basicamente, a um conjunto de sintomas e sinais comuns a diversos síndromes neurodesenvolvimentais e que ocorre em crianças, sobretudo, entre os 15 meses e os 4 anos de idade. Assim, de acordo com este autor, estas crianças poderão apresentar, entre muitas outras, manifestações de uma Perturbação do Espectro do Autismo (desvio do olhar; perturbação da intencionalidade comunicativa/ isolamento; rigidez comportamental; estereotipias; fixações; desatenção conjunta), de uma Perturbação da Linguagem (linguagem expressiva pobre e, muitas vezes, compreensiva mais adequada); de uma Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção (irrequietude; desatenção focalizada nas actividades; impulsividade), de uma Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação Motora (desajeitamento motor grosseiro e/ou fino), de uma Perturbação do Comportamento Alimentar, de uma Perturbação de Tiques, de uma Perturbação de Movimentos Estereotipados, de uma Perturbação do Humor e de uma Perturbação do Sono. A evolução clínica poderá ser muito diversa, designadamente para: Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção; Perturbação do Espectro do Autismo; DAMP (défice na atenção, na coordenação motora e percepção); Perturbação Disruptiva do Comportamento e do Controlo dos Impulsos (Perturbação de Oposição e de Desafio; Perturbação de Conduta; … ); situações de co-morbilidade variável e complexa (por exemplo, associação de Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção, a Perturbação do Espectro do Autismo, a Perturbação da Linguagem, a Perturbação Específica da Aprendizagem, …); ou, o que não é assim tão raro, para um neurodesenvolvimento e um comportamento convencionais.

De uma forma sucinta, e como conclusão, o conceito ESSENCE é um não-diagnóstico (“é esperar para ver”). De um ponto de vista clínico, é de uma extrema utilidade.

 

Por

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Maria João Palha

  • Interna de Pediatria do Centro Hospitalar Lisboa Norte (Hospital de Santa Maria)
  • Departamento de Pediatria (Directora: Prof. Doutora Maria do Céu Machado)

 

 

 

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