Grupo de Pais

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Por Paula Loureiro, a convite da Dra. Ana Catarina Gomes

Sou professora do 1ºciclo há sensivelmente 25 anos e, no último meio ano, a minha vida deu uma reviravolta e mudei de escola e de projeto de vida. Esta mudança fez-me olhar em retrospetiva e dei por mim a transformar o meu cérebro num livro. Internamente pus-me a olhar para cada folha de papel, folheando os alunos que por mim já passaram e que já são muitos. Tenho o privilégio de conhecer e de socializar com muitos deles e sinto um orgulho enorme em fazer parte das suas vidas. De uma forma ou de outra, toquei em algum ponto do seu desenvolvimento pessoal e sinto-me grata por poder ser ou ter sido uma boa influência para a maioria deles.

Os seus rostos passam pela minha mente, um a um, e verifico que todos eles me ensinaram algo. Uns ensinaram-me a saber errar e outros a saber evoluir. Com todos aprendi a saber esperar, a saber ouvir, a observar, a estar, a ser…, mas todos eles me deram a força necessária para tentar sempre fazer mais e melhor e se não o consegui foi porque simplesmente não teve que ser.

A minha escola anterior, sendo uma instituição de dimensões pequenas, foi sempre escolhida por muitos pais como o lugar ideal para crianças que, por uma razão ou por outra, precisavam de um acompanhamento mais individualizado. Portanto, ao longo de vários anos, tive o privilégio de crescer como profissional pois contactei diretamente com diferentes tipos de crianças, com necessidades educativas variadíssimas.

Houve e há, sem dúvida, dias difíceis e nem sempre ser professora é um caminho fácil. Temos alturas de autêntico desalento, de frustração e de tristeza, mas a maioria das vezes ser professora é uma oportunidade única de levar uma vida com alegria, diversão e entusiasmo. É desgastante, mas ao mesmo tempo deveras recompensador. Vivemos momentos únicos e temos a oportunidade de fazer algo pelos outros. As crianças são pequenas estrelinhas que vieram para nos iluminar o caminho e sem elas não seríamos como somos.

O segredo para o sucesso educativo é sem dúvida aceitar as diferenças como uma dádiva, uma oportunidade de crescimento pessoal e de aprendizagem. Ao longo destes anos atrevo-me a dizer que se calhar aprendi mais do que alguma vez ensinei. Tento sempre ensinar com alma, e com o coração. Sinto realmente que a missão de um professor é estar para as crianças e ser, de alguma forma, a sua voz e fazer por elas o que estiver ao nosso alcance.

Desde há 4 anos para cá que tenho tido o privilégio de ser tia de uma linda menina com Trissomia 21. Condição esta com que nunca havia trabalhado e que me permitiu crescer como pessoa e como profissional. Devido à minha experiência pessoal e profissional decidi inscrevi-me numas aulas em Educação Especial e embora me tenha sido sempre um tema querido, andei a redescobrir novos caminhos e novas formas de pensar.

Há tempos numa aula, uma professora dizia “a inclusão começa aqui” apontando para a sua cabeça. E de facto é verdade. Estamos sempre à espera que os outros façam alguma coisa, mas é em nós que essa mudança tem que ocorrer. Será que olhamos para a diferença como algo simplesmente diferente ou a olhamos como um potencial em crescimento.

Li também algures que todos nós somos deficientes em algo, não há ninguém que seja simplesmente perfeito. É uma utopia pensar que somos (ou podemos a vir a ser) seres perfeitos e imaculáveis. A diferença habita em todos nós e atrevia-me a dizer que é o que nos faz sermos únicos e especiais, diferenciando-nos dos outros.

No ano passado, no dia 30 de outubro de 2015, ao assistir ao Congresso de Trissomia 21 tive o privilégio de presenciar a um momento único. Um painel de oradores portadores de Trissomia 21 que testemunharam o quão importante era para eles trabalhar e sentirem-se parte integrante da sociedade. Foram comunicações de uma profundidade de afetos, que nos arrebatou a todos.

Cada vez mais me convenço que as pessoas portadoras de Trissomia 21 têm o centro de inteligência emocional muito desenvolvido. Sentem com uma enorme profundidade a maioria dos acontecimentos, conectam-se com os que lhe são mais próximos com uma intensidade que nos reconforta e envolve. São, quanto a mim, mestres na arte de amar e de sentir.

Faço minhas as palavras da Presidente da Direção da APPT21, Maria João Palha, quem nos dera a nós termos todos um pouco de trissomia 21. Seríamos com toda a certeza uma sociedade bem mais solidária e feliz.

Paula Loureiro

paulamloureiro@gmail.com

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